7.700 ienes por bater na porta errada: o intérprete de hospital que quase ninguém usa em Aichi

7.700 ienes. É a taxa mínima que certos hospitais são obrigados a cobrar de quem chega sem carta de encaminhamento. No jikyu (valor da hora) de 1.500 ienes, isso dá mais de 5 horas de genba. E o intérprete de hospital que existe aqui em Aichi, sem custo para o paciente, quase ninguém chega a usar.
7.700 ienes. É a taxa mínima que certos hospitais são obrigados a cobrar de quem chega sem carta de encaminhamento.
No jikyu (valor da hora) de 1.500 ienes, isso dá mais de 5 horas de genba. E o intérprete de hospital que existe aqui em Aichi, sem custo para o paciente, quase ninguém chega a usar.
7.700 ÷ 1.500 = 5,1 horas. Cinco horas em pé na linha para pagar uma taxa que não é consulta, não é remédio, não é exame. É só a taxa de ter entrado pela porta errada. Se o seu jikyu for 1.300, são quase 6 horas. Se for 1.800, são 4 horas e 17 minutos. Faça a conta com o seu próprio valor e o número fica bem menos abstrato.
Essa taxa tem nome: 選定療養費 (senteiryouyouhi). Desde outubro de 2024 o valor mínimo da primeira consulta é 7.700 ienes, e no retorno são pelo menos 3.300. O nome aparece assim, escrito na conta, quando você paga.
Onde ela é cobrada de verdade (não é "todo hospital de 200 leitos")
Essa parte costuma ser explicada errado, inclusive por quem já mora aqui há muito tempo, e o erro custa dinheiro.
A cobrança é OBRIGATÓRIA em três tipos de hospital:
• os tokutei kinou byouin — os hospitais universitários e de alta complexidade;
• os chiiki iryou shien byouin com 200 leitos gerais ou mais;
• os shoukai jushin juuten iryou kikan com 200 leitos gerais ou mais, uma categoria mais recente.
Repare que o número de leitos sozinho não decide nada. Um hospital grande que não esteja em nenhuma dessas três categorias pode cobrar uma taxa por conta própria, ou pode simplesmente não cobrar. Contar leitos, ou olhar o tamanho do prédio, não responde a pergunta.
O que responde é perguntar. Todo hospital é obrigado a informar se cobra e quanto, e isso costuma estar no site e num aviso na parede da recepção. Uma ligação de dois minutos num dia em que você está bem evita a surpresa no dia em que você não estiver.
Por que você quase sempre acaba no hospital grande
O raciocínio é sempre o mesmo. Está doendo, é domingo ou é depois do yakin (turno da noite), você não sabe se aquilo é do estômago ou do intestino, não sabe qual especialidade atende isso, e pensa: no hospital grande tem tudo, lá alguém resolve. Talvez até tenha alguém que fale alguma coisa.
Aí acontece uma destas três: cobram a taxa a mais; mandam você voltar com carta de encaminhamento; ou você entra, senta, e não consegue explicar o que está sentindo — e sai com um remédio genérico para dor sem que ninguém tenha entendido o problema.
Antes do chourei, de manhã, quando alguém aparece com a mão enfaixada, a conversa é sempre a mesma: qual hospital atende, qual não atende, quem tem parente que fala japonês, quem pode faltar no dia para acompanhar. Saúde acaba sendo resolvida no boca a boca do genba. E o boca a boca do genba está quase sempre desatualizado.
Existe intérprete por telefone, e ele não sai do seu bolso — mas tem uma condição
Aichi tem um sistema chamado Aichi Iryo Tsuyaku System: interpretação por telefone, 24 horas por dia, 365 dias por ano, e o português está entre as línguas atendidas.
Antes de tudo, a condição que quase nunca é contada, e que muda completamente como você usa isso:
Quem aciona o intérprete é a instituição de saúde, e só as que têm convênio com o sistema conseguem acionar. Não é o paciente que liga. Não é qualquer clínica que participa. E quem paga é a própria instituição, por um plano mensal — por isso não sai do seu bolso.
Ou seja: se você chegar numa clínica que não tem convênio e pedir intérprete de português, não vai aparecer ninguém. Não por má vontade do balcão. Aquela clínica simplesmente não está no sistema.
Então o uso certo desse sistema não começa no dia da dor. Começa antes: ligue para a clínica perto de casa, ou pergunte na próxima consulta, se ela usa o Aichi Iryo Tsuyaku System. Trinta segundos de pergunta num dia comum decidem para onde você vai no domingo em que estiver passando mal.
Se a clínica ou o hospital tiver convênio, a frase para mostrar na tela do celular é curta:
ポルトガル語の通訳をお願いします。あいち医療通訳システムを使ってください。
("Peço um intérprete de português. Por favor, usem o Aichi Iryo Tsuyaku System.")
Nem todo funcionário de balcão conhece o sistema de cor — e é exatamente por isso que o nome escrito ajuda mais do que qualquer explicação falada. Além do telefone, em alguns casos dá para combinar intérprete presencial, mas esse precisa ser agendado com antecedência, e não serve para o dia em que a dor apareceu.
O mapa curto das especialidades
Metade do problema não é nem falar japonês. É escolher a porta. Vai aqui o essencial, com o kanji, porque na entrada do hospital o que está escrito na placa é o kanji:
内科 (naika) — clínico geral. Febre, gripe, estômago, intestino, pressão, diabetes, exame de sangue. Na dúvida, é aqui que se começa.
整形外科 (seikeigeka) — ossos, músculos, coluna, articulações. Dor lombar de levantar peça o dia inteiro, ombro travado, punho inchado de trabalho repetitivo, dedo prensado, torção.
皮膚科 (hifuka) — pele. Alergia de óleo de corte, mão rachada de solvente, coceira que não passa, unha inflamada.
眼科 (ganka) — olhos. Fagulha, limalha, cavaco no olho, vista embaçada. Corpo estranho no olho não espera até segunda-feira.
耳鼻咽喉科 (jibiinkouka) — ouvido, nariz, garganta. Zumbido, audição caindo (genba barulhento cobra o seu preço), sinusite.
心療内科 / 精神科 (shinryounaika / seishinka) — quando não dá para dormir, quando o peito aperta antes de entrar no turno, quando a vontade sumiu. Isso também é doença e também tem médico.
歯科 (shika) — dentista.
小児科 (shounika) — crianças. 産婦人科 (sanfujinka) — gravidez e saúde da mulher.
Um homem de quarenta e poucos anos, com a coluna judiada de dez anos de prensa, me contou que passou dois anos indo ao naika por causa da dor nas costas. Era a única placa que ele conseguia ler. Ninguém nunca tinha dito a ele que existia uma porta chamada seikeigeka, e nesses dois anos ele tomou analgésico e continuou levantando peça.
Como o dinheiro funciona de verdade
Com kenko hoken (plano de saúde), você paga 30% da conta. O resto é coberto.
Consulta na clínica pequena que custa 3.000 no total: você paga 900.
Um exame que custa 12.000: você paga 3.600.
Agora compare com os 7.700 do hospital grande sem encaminhamento. Essa taxa é 100% sua — não entra na regra dos 30%. Ou seja: 900 ienes na clínica do bairro contra 900 + 7.700 no hospital que cobra, pelo mesmo primeiro atendimento.
E se a clínica achar que o caso precisa de hospital, ela escreve o 紹介状 (shoukaijou, a carta de encaminhamento). Com a carta na mão, a taxa não é cobrada. A carta em si custa uns poucos milhares de ienes na conta total, dos quais você paga 30%.
Emergência de verdade, chegando de ambulância, em geral não entra nessa cobrança. A regra existe para organizar fila, não para punir quem está passando mal.
E quem está sem plano nenhum paga 10 em cada 10: aqueles 900 viram 3.000, e uma internação de alguns dias vira centenas de milhares. Se o seu holerite (contracheque) tem desconto de kenko hoken, o cartão existe — e ele vale muito mais do que o valor descontado.
O que costuma resolver
Saber o nome de uma clínica pequena perto de casa antes de precisar dela vale mais do que saber o nome do maior hospital da região. Clínica de bairro custa menos, atende mais rápido e é ela que escreve a carta quando o caso é grande.
Na mesma ligação, pergunte duas coisas: se ela usa o sistema de intérpretes e se cobra taxa de primeira consulta. Duas perguntas, uma ligação.
Levar zairyu card e o cartão do kenko hoken junto. Sem o cartão, o balcão cobra 10 em cada 10 e depois o reembolso vira papelada.
E pedir o intérprete logo na chegada, no balcão — não no meio da consulta, com o médico já esperando. Cinco minutos ali evitam um diagnóstico errado.
Onde perguntar em português
Aichi Iryo Tsuyaku System — interpretação por telefone, 24 horas, 365 dias, com português entre as línguas. Quem aciona é a instituição de saúde conveniada, então a pergunta certa é feita antes: "esta clínica usa esse sistema?".
Associação Internacional de Toyota (Toyota Kokusai Koryu Kyokai) — 0565-33-5931. Abre de terça a sexta das 9h às 19h, e sábado e domingo das 9h às 17h; segunda é fechado. Em que dia há atendente de português não está publicado — pergunte por telefone antes de ir. Dá para levar a conta do hospital, ou um papel que você não entendeu, e perguntar ali mesmo.
A Bridge Staff Service fica em Toyota desde 1978, atende Toyota e as cidades vizinhas, e no escritório o Ishibashi fala português — 0565-34-0707, dias úteis das 10h às 17h; o LINE recebe mensagem a qualquer hora.
Comentário aqui embaixo vira mapa: se você escrever o nome de uma clínica da região onde conseguiu se explicar, outra família economiza uma tarde inteira.
E a pergunta de hoje é fácil de responder: você já foi a um hospital aqui no Japão e não conseguiu explicar direito o que estava sentindo? Só "já" ou "nunca" ajuda.
- #brasileirosnojapao
- #Toyota
- #Aichi
- #saudenojapao
- #medicoemportugues
Ficou com dúvida sobre este texto? Pode perguntar pelo formulário de cadastro, por e-mail, ou no Messenger do Facebook.



