A prova de koukou que seu filho pode perder pelo tempo de Japão

Seis anos. É um dos limites que, em Aichi, decidem se seu filho pode usar a prova de koukou feita para alunos estrangeiros. É um limite de tempo de Japão — e não é o único caminho até essa prova. E a contagem não começa no dia em que o menino entrou na escola: começa no dia em que a família entrou no país. Quando alguém explica isso para os pais, o filho quase sempre já está no 3º ano do chuugakkou.
Seis anos. É um dos limites que, em Aichi, decidem se seu filho pode usar a prova de koukou feita para alunos estrangeiros. É um limite de tempo de Japão — e não é o único caminho até essa prova.
E a contagem não começa no dia em que o menino entrou na escola: começa no dia em que a família entrou no país. Quando alguém explica isso para os pais, o filho quase sempre já está no 3º ano do chuugakkou.
No Japão, o koukou não é obrigatório
O ensino obrigatório aqui termina no 3º ano do chuugakkou (o ginásio japonês, que corresponde mais ou menos ao 7º, 8º e 9º ano do Brasil). Depois disso, ninguém é obrigado a continuar.
Isso muda tudo. Significa que, se a família não fizer nada, não acontece nada. Ninguém liga na sua casa, ninguém manda carta de cobrança. O ano letivo acaba em março, o menino recebe o diploma do chuugakkou, e no dia seguinte ele está em casa, com 15 anos, sem escola.
E sem muita saída no trabalho também: pela lei japonesa, em regra, menor de 18 anos não pode trabalhar no horário noturno, das 22h às 5h. Ou seja, justamente o yakin, que é onde está boa parte do dinheiro no genba daqui. A lei abre uma exceção, e ela é estreita: homem, 16 anos completos ou mais, e em regime de turnos alternados — o kotai. Aos 15, recém-saído do chuugakkou, ela não vale.
A grande maioria dos jovens no Japão continua no koukou. Quem não continua fica de fora de coisas que só aparecem anos depois: muita vaga de emprego pede o diploma do koukou, e vários cursos e licenças também pedem. Não é uma porta que bate na cara. É uma porta que fecha devagar, sem barulho, ao longo de uns dez anos.
Aichi tem uma seleção separada para alunos estrangeiros
A província de Aichi realiza, em colégios públicos, uma seleção chamada 外国人生徒及び中国帰国生徒等にかかる入学者選抜 — a prova de entrada para alunos estrangeiros e filhos de repatriados da China. Esse é o nome completo. Nos calendários da própria província ele aparece encurtado, como 外国人生徒等選抜. Vale a pena copiar os dois num papel e mostrar no chuugakkou, porque um caractere trocado já muda o nome da prova.
Não é em todo colégio. É uma lista de escolas definida pela província, e essa lista muda de ano para ano. As vagas dessa seleção são separadas das vagas da prova comum.
Para poder usar essa seleção existem condições. As duas principais são: o aluno (ou o pai, ou a mãe) ter nacionalidade estrangeira, e o tempo de permanência no Japão, contado desde a entrada no país, estar dentro de um limite — em Aichi esse limite tem sido de 6 anos.
Repare no que a segunda condição quer dizer na prática. Não é "quanto mais tempo de Japão, melhor". É o contrário. Essa prova existe para quem chegou há pouco e ainda não teve tempo de aprender a ler japonês. Quem está aqui há 10, 15, 20 anos, e os filhos que nasceram aqui, em geral fazem a prova comum, em japonês, junto com todos os alunos japoneses.
Mas esse limite de 6 anos não está sozinho. Ao lado dele existe outro caminho, e ele olha para o ano escolar em que a criança entrou numa escola japonesa: quem entrou a partir do 4º ano do shougakkou (o primário daqui) pode se enquadrar por esse lado, mesmo já tendo mais de 6 anos de país — é o caso de quem estudou em escola brasileira antes e trocou depois. E quem entrou num ano mais baixo pode ser considerado quando há uma situação reconhecida como especial. Por isso não decida nada olhando só para o número de anos.
Isso aqui é a regra geral. As condições, a lista de escolas e o número de vagas são publicados todo ano pela província, e quem confirma o que vale para o ano do seu filho é o chuugakkou onde ele estuda.
A conta do tempo de Japão
Dá para fazer agora, de cabeça, sem procurar papel nenhum.
A prova dos colégios públicos de Aichi é em fevereiro, no 3º ano do chuugakkou. Então o que importa é: quantos anos e meses de Japão seu filho vai ter naquele fevereiro?
Exemplo. Uma família entrou no Japão em abril de 2021, e o filho faz a prova em fevereiro de 2027.
De abril de 2021 até abril de 2026 = 5 anos.
De abril de 2026 até fevereiro de 2027 = mais 10 meses.
Total: 5 anos e 10 meses. Dentro do limite de 6 anos.
Agora a mesma família, só que tendo entrado em março de 2020.
De março de 2020 até março de 2026 = 6 anos.
De março de 2026 até fevereiro de 2027 = mais 11 meses.
Total: 6 anos e 11 meses. Por essa conta, fica de fora do limite — mas lembre do outro caminho, o do ano de entrada na escola japonesa. É caso de levar ao chuugakkou e perguntar, não de desistir.
Treze meses de diferença na data de entrada já mudam a resposta dessa conta. E não existe ninguém encarregado de avisar isso para você.
Troque pelos seus números. Pegue o mês e o ano em que vocês entraram no Japão — está no carimbo de desembarque do passaporte — e conte até fevereiro do ano em que seu filho estiver no 3º ano do chuugakkou.
Por que descobrir no 3º ano já é tarde
O motivo não é um só, e nenhum deles se resolve em dois meses.
A nota. A entrada no colégio público não é só a prova do dia. As notas do chuugakkou entram na conta, através do naishinsho (o documento que o chuugakkou manda para o colégio). E aqui vem um detalhe de Aichi que muita família só descobre tarde demais: na seleção comum, entram apenas as notas do 3º ano — as nove matérias, do período de abril a dezembro, multiplicadas por dois, dando 90 pontos. As notas do 1º e do 2º ano não entram na conta. Ou seja, a única nota que vale está sendo formada exatamente no mesmo ano em que a família costuma descobrir tudo isso de uma vez só. Não existe "recuperar depois": o depois é o próprio ano da prova.
O japonês. O japonês de ler é outro japonês. Tem criança que fala solto, que atende o telefone da casa, que traduz para a mãe no supermercado — e que trava na frente de um texto de prova cheio de kanji. Falar se aprende na rua e na escola em um ou dois anos. Ler texto de prova leva bem mais. Não é falta de inteligência da criança. É tempo, e tempo não se acelera em seis meses.
O calendário. A escolha do colégio não acontece em fevereiro. Ela acontece nas conversas de orientação do outono do 3º ano, na reunião com o professor, e o formulário de inscrição sai em janeiro. Quando a família entende o que está acontecendo, a decisão já foi tomada por falta de decisão.
Estamos em agosto de 2026. Então:
Se seu filho está no 1º ano do chuugakkou, faltam 2 anos e 6 meses até a prova de fevereiro de 2029.
Se está no 2º ano, faltam 1 ano e 6 meses, até fevereiro de 2028.
Se está no 3º ano, faltam 6 meses, até fevereiro de 2027.
Seis meses é pouquíssimo. Dois anos e meio é muita coisa. É a mesma criança. Muda só a data em que a família ficou sabendo.
O purinto que fica em cima da geladeira
No estacionamento da fábrica, antes de entrar, esse assunto aparece de vez em quando. Um pai comenta que o filho foi bem em matemática e travou na prova de língua japonesa porque não conseguiu ler o enunciado até o fim. Aí todo mundo fica quieto um pouco, porque tem sempre mais de um ali na mesma situação.
Toda semana chega em casa um purinto (os papéis que a escola manda). Reunião de pais, orientação de carreira, prazos, valores, autorizações. Tudo em japonês, com kanji, muitas vezes sem furigana.
O papel chega às seis da tarde. O pai está no kotai, entrando no yakin. A mãe volta do nikkin morta, com o zangyou de mais duas horas nas pernas. O papel vai para cima da geladeira. Em duas semanas está embaixo de outros três.
E tem uma armadilha nisso. Muitas vezes é a própria criança que serve de intérprete da casa. Ela lê o que consegue e resume o resto por cima. Um aviso sobre "reunião de orientação de carreira, presença dos responsáveis" vira "é uma reunião da escola, não precisa ir". Ninguém está mentindo. É só que uma criança de 13 anos não tem como saber o peso daquele papel.
O que dá para fazer sem esperar
Perguntar no chuugakkou, este ano mesmo, quais colégios públicos fazem a seleção para alunos estrangeiros e quais são as condições deste ano. Essa pergunta cabe em uma frase.
Pedir intérprete para a reunião entre professor, aluno e responsável. Muitas escolas conseguem providenciar se a família avisa com antecedência. Não é garantido em todo lugar, mas perguntar não custa nada.
Pedir ao tannin (o professor responsável pela turma) que avise quando vier um papel com prazo. Muito professor faz isso de boa vontade quando entende que em casa ninguém lê kanji. Ele só não faz porque não sabe.
Perguntar na prefeitura da cidade e na escola se existe apoio de japonês para alunos estrangeiros — sala de japonês, reforço, voluntários. Existe mais coisa do que a maioria das famílias imagina, e quase nada disso vai atrás de você.
E, se der, separar um lugar só para papel com data. Uma pasta, uma caixa de sapato, qualquer coisa. Qualquer coisa que não seja em cima da geladeira.
Onde perguntar em português
Associação Internacional de Toyota (Toyota Kokusai Koryu Kyokai) — 0565-33-5931. Abre de terça a sexta das 9h às 19h, e sábado e domingo das 9h às 17h; segunda é fechado. Em que dia há atendente de português não está publicado — pergunte por telefone antes de ir. Dá para levar o purinto que você não conseguiu ler e perguntar ali mesmo.
E o chuugakkou do seu filho, que é quem tem em mãos a lista de escolas e as condições deste ano. Um bilhete curto no caderno de recados já abre a conversa.
A Bridge Staff Service fica em Toyota desde 1978, atende Toyota e as cidades vizinhas, e no escritório o Ishibashi fala português — 0565-34-0707, dias úteis das 10h às 17h; o LINE recebe mensagem a qualquer hora.
Se você comentar aqui embaixo, outro pai que está lendo calado descobre que não é o único — e dá para comentar sem dizer o nome da escola nem do seu filho.
Então fica a pergunta: você consegue ler sozinho os purinto que seu filho traz da escola, ou precisa de ajuda? Pode responder só com "consigo" ou "preciso de ajuda".
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