Os 20,42% do dattai ichijikin que ninguém avisa

De cada 500.000 ienes de dattai ichijikin do kosei nenkin, 102.100 ienes não caem na sua conta. Esse dinheiro pode voltar para você, e o caminho mais seguro começa com um papel entregue antes de você sair do Japão.
De cada 500.000 ienes de dattai ichijikin do kosei nenkin, 102.100 ienes não caem na sua conta.
Esse dinheiro pode voltar para você, e o caminho mais seguro começa com um papel entregue antes de você sair do Japão.
Dattai ichijikin (a devolução de parte do nenkin quando o estrangeiro deixa o Japão) é aquele dinheiro que quase todo mundo comenta no genba quando alguém decide voltar ao Brasil. E é também um dos assuntos onde mais gente perde dinheiro sem saber, porque as regras não estão escritas em português em lugar nenhum da fábrica.
O que vem abaixo é a ordem em que as coisas costumam dar errado. Cada item já custou dinheiro a alguém que voltou.
1. Seis meses. Nem um mês a menos
Para ter direito, é preciso ter no mínimo 6 meses de tempo de contribuição no nenkin — seja o kosei nenkin (descontado direto do salário, junto com o shakai hoken) ou o kokumin nenkin (pago por conta própria na prefeitura).
Cinco meses e meio não valem. Não existe meia devolução.
Isso pesa para quem vem com contrato curto, trabalha uma temporada e volta. E pesa também para quem passou meses trabalhando sem estar no shakai hoken: mês que não entrou no nenkin não conta para os seis.
2. O cálculo só conta até 60 meses — e o aumento para 8 anos ainda não começou a valer
Essa parte quase nunca aparece nas conversas, e é a que mais muda a decisão de quem está há muitos anos aqui.
O valor da parte que vem do kosei nenkin sai de duas coisas: a média do seu salário de referência e o número de meses que entram na conta. E esse número de meses tem teto.
Até março de 2021 o teto era de 36 meses. Desde abril de 2021 ele é de 60 meses, ou seja, 5 anos. É esse o teto que vale hoje, e é o que continua escrito na página oficial do dattai ichijikin.
Existe, sim, uma lei aprovada em 2025 que sobe esse teto para 96 meses, 8 anos. O que ainda não existe é a data em que ela passa a valer: a própria lei deixou essa data para ser marcada depois, por decreto, e até agora o decreto não saiu. Enquanto isso, quem pede recebe no máximo 60 meses. A mesma lei também vai passar a impedir o pedido enquanto a permissão de reentrada estiver válida — e essa parte também ainda não começou a valer.
Duas consequências práticas. A primeira: quem trabalhou 12 anos com desconto no holerite não recebe 12 anos de volta — hoje recebe até 5. A segunda: no genba circulam dois números errados ao mesmo tempo. O antigo, "só sai três anos", e o novo, "agora são oito". Quem decide a vida por qualquer um dos dois está contando com um valor que não é o de hoje.
Por isso os valores que aparecem no próximo item são exemplos para mostrar o tamanho do desconto, não uma tabela. O seu depende do seu salário médio e de quantos meses entram, até esse teto.
3. Dois anos depois de sair. Depois disso acabou
O pedido tem que ser feito dentro de 2 anos contados do dia em que você deixa de ter endereço no Japão.
Um exemplo com data, para ficar concreto: quem sai do Japão em setembro de 2026 tem até setembro de 2028. Passou disso, o direito some — não existe pedir com atraso, não existe explicar o motivo, não existe recurso.
Dois anos parece muito tempo quando a pessoa está chegando no Brasil, com a casa para montar e emprego para procurar. Aí passa o primeiro ano, passa o segundo, e aquele envelope com os papéis do nenkin continua dentro da mala.
4. Os 20,42% que ficam retidos
O valor que sai do cálculo e o valor que cai na conta não são o mesmo.
Sobre a parte do dattai ichijikin que vem do kosei nenkin, o Japão retém 20,42% de imposto na fonte. Você recebe o valor menos esse desconto:
Se o valor for 300.000 ienes → 300.000 × 0,2042 = 61.260 retidos. Chega 238.740.
Se for 500.000 ienes → 500.000 × 0,2042 = 102.100 retidos. Chega 397.900.
Se for 800.000 ienes → 800.000 × 0,2042 = 163.360 retidos. Chega 636.640.
Quem contribuiu só no kokumin nenkin não tem essa retenção. Ela é sobre a parte do kosei nenkin.
5. O papel que traz esses 20,42% de volta: nouzei kanrinin
Esse dinheiro retido não é necessariamente perdido. Existe um caminho para pedir a devolução dele — e o caminho começa enquanto você ainda está no Japão.
Antes de sair do país, é possível registrar no zeimusho (a receita federal japonesa) da sua região um nouzei kanrinin: um representante fiscal, alguém que continua morando no Japão e aceita cuidar da sua parte de imposto depois que você viajar. Pode ser um parente, o cônjuge de alguém da família, uma pessoa de confiança.
Depois que o dattai ichijikin é pago e chega o aviso do valor, essa pessoa faz a declaração no Japão e pede a devolução do imposto retido. Quanto volta depende dessa declaração.
A ordem importa muito: o registro do representante é feito antes da saída do Japão. Quem sai sem deixar ninguém registrado descobre, do Brasil, que resolver isso à distância fica bem mais difícil.
Isso é a regra geral, não é um parecer sobre o seu caso — cada situação tem detalhes.
6. O preço escondido: o seu tempo de nenkin some
Essa é a parte que ninguém comenta na hora de comemorar o dinheiro.
Quando você recebe o dattai ichijikin, todo o período de contribuição que você tinha até ali é apagado. Não fica guardado, não fica dormindo. Some do seu registro.
Quer dizer: se um dia você voltar ao Japão para trabalhar, você recomeça do zero. Aqueles anos de desconto no holerite (contracheque), mês após mês, não contam mais para nada.
Por isso a decisão não é automática. Para quem foi embora de vez, é dinheiro que estava parado. Para quem tem chance de voltar em alguns anos — e no nosso caso isso acontece bastante — é uma troca: dinheiro agora contra tempo apagado.
Vale pensar nisso com calma, e não no meio da correria da mudança.
Onde a confusão costuma nascer
No carro da carona, voltando para casa, um homem que já tinha marcado a passagem de volta perguntou se o dattai ichijikin era a mesma coisa que aquela devolução de imposto que ele recebeu em março.
Não é. São dinheiros diferentes, com prazos diferentes e papéis diferentes: um é previdência, o outro é imposto de renda, e existe ainda o acerto do imposto de residência, que costuma ser cobrado de uma vez quando a pessoa avisa que vai embora. Misturar os três é o começo de perder um deles.
Onde perguntar, e para onde vai o papel
O pedido não é feito no balcão do bairro. O formulário do dattai ichijikin é enviado pelo correio ao Japan Pension Service (Nihon Nenkin Kikou), normalmente já do Brasil, junto com cópia do passaporte com o carimbo de saída, o comprovante da sua conta bancária e o documento do nenkin. Vale separar e fotografar tudo isso ANTES de viajar: juntar esses papéis de longe é onde a maioria trava.
O nouzei kanrinin é registrado no zeimusho da região onde você mora — quem mora em Toyota registra no Toyota Zeimusho. É um formulário curto, entregue antes da saída, e é ele que abre a porta dos 20,42%.
A Bridge Staff Service fica em Toyota desde 1978, atende Toyota e as cidades vizinhas, e no escritório o Ishibashi fala português — 0565-34-0707, dias úteis das 10h às 17h; o LINE recebe mensagem a qualquer hora.
Se alguém aqui já fez esse pedido de dentro do Brasil, conta nos comentários como foi e quanto tempo demorou. Esse relato vale mais do que qualquer explicação minha.
Você conhece alguém que voltou ao Brasil e nunca chegou a receber esse dinheiro?
- #brasileirosnojapao
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